Lendas e tradições

DANÇAS E CANTARES: 
Fazem parte da memória dos mais velhos, os serões bem passados com algumas modas da Região.
 
Das cantigas da época, destacam-se:
- Adeus Areal do Rio – um descante de fina do século XVIII até ao primeiro quartel do século XX.
- Descante aos Noivos – datado de início do século XIX até aos anos quarenta do século XX, cantava-se nas vésperas dos casamentos.
- cantigas das Eiras – datadas de meados do século XVIII até ao primeiro quartel do século XX, ocorriam nas eiras dos camponeses durante as descamisadas a luz do luar.
- Carnaval -  cantigas ao som de instrumentos, vulgarizada como descante até ao final do século XIX, que se ouvia como desafio entre grupos de rapazes e raparigas.
- Lavadeira – Cantiga do século XIX, que eram protagonizadas pelas camponesas de São Martinho do Bispo a caminho ou no regresso dos campos. Actualmente, extintos, são recuperados, pelos grupos tradicionais desta Freguesia.
 
Das danças, salientam-se:
- Estalado – Datada do último quartel do século XVIII ao primeiro do XX, trata-se de uma dança da cidade de Coimbra e freguesias limítrofes, que integrava as romarias locais.
- Viras – (Vira de 4, Vira de 8, Vira Mandado e Vira Valseado) estas modas, datadas do século XIX, são características das festas e arraiais, dançando-se iguamente nas eiras, em especial no final da colheita.
- Fado Riscado Mandado – Trata-se de uma dança das eiras atada do século XIX.
- Odas de Roda Mandada – (Serrana, Padeirinha e Amendoeira), são danças características das festas e arraiais do primeiro quartel do século XX.
- Verdegaio – (Verdegaio de 4 e Verdagaio Marcado) estas danças remontam aos séculos XIX e XX, sendo características das povoações dos campos de Coimbra situados na margem esquerda do Mondego.
 
Todas as danças tradicionais encontram-se actualmente extintas, sendo apenas apresentadas publicamente pelos grupos folclóricos.
 
TRAJES CARACTERISTICOS: 
De acordo com documentos antigos desta região, recuperaram-se alguns trajes, entre os quais:
- Tricana – São Martinho do Bispo foi última Freguesia Do concelho de Coimbra, em que de tricana deixou de ser usado regularmente, o que aconteceu já nos anos 40 do século XX. Existiram várias formas de trincanas que vananam de acordo com a circunstancia e a época Tricana de Romaria – Forma de trajar nas romaria e arraias do ultimo quartel do século XIX até ao primeiro quartel do século XX, Tricana de Cerimonia – Forma como na mesma época, a tricana se alindava com roupas melhoradas, sem avental, para ocasiões de festa como Procissões, Vendedeira de agua para a cidade de Coimbra, entre os séculos XIX e XX.
- Camponeses – Foram característica de trajar das pessoas dos campos de São Martinho do Bispo, desde meados do século XVIII até aos anos 30 do século XX.
- Traje de ver a Deus – Traje próprio para cerimónias religiosas, nomeadamente as que ocorriam no interior das igrejas ou capelas, no ultimo quartel do século XIX e primeiro quartel do XX.
- Traje de Feira -  Forma de trajar dos camponeses de São Martinho do Bispo em dias de feira, em finais do século XIX.
- Traje de Meia-Senhora – Forma de vestir da menina “mimada” (aquela que não ia para o campo), no primeiro quartel do século XX.
 
COSTUMES:
- Jogo da barra – Jogando no masculino, constava de duas equipas compostas por três ou mais jogadores cada. Cada uma das equipas posicionava-se numa linha a distancia de 20 ou mais metros, uma da outra, e com uma linha divisória ao meio, delimitando dois meios campos. A linha que marcava a posição dos jogadores denominava-se “barra”. A finalidade do jogo era cada jogador tentar eliminar aos adversários através de um toque de mão em qualquer parte do corpo. Cada jogador tocado pelo adversário ia para um local chamado “ferrugem”, pré-determinado. Tinha vantagem sobre qualquer outro, o jogador que tivesse saído em último lugar da barra. Quando todos os jogadores de uma equipa estivessem na ferrugem, então a vitória seria da equipa adversária.
 
- Jogo da Pela – Foi muito famoso este jogo, em toda a freguesia, pelo que ocorriam renhidas disputas entre as equipas dos seus lugares, organizando-se verdadeiros campeonato, pratica que durou até meados dos anos 60 do século XX. Podiam ser equipas mistas, mas era muito frequente encontrarem-se equipas femininas. Tratava-se de um jogo muito simples que, para além da “pela” (uma pequena bola de borracha), apenas precisava de espaço (um largo, uma entrada, etc.), um pequeno banco de cozinha deitado e duas equipas. A equipa que estava junto ao banco “pelava”, jogava a pela com força em direcção á equipa adversaria que tentava apanhar a mesma. Se o conseguia, tinha de a jogar tentando acertar no banco. Quando acertava ganhava um ponto, se não acertava, este era para a equipa adversária. Normalmente, jogava-se ao tostão. Por jogo, cada jogador que perdia pagava um tostão a equipa vencedora.
 
- Jogo do Lenço – Trata-se de um jogo muito simples, jogado aos domingos a tarde, por rapazes e raparigas. Dispunham-se num circulo, o maior possível, e um dos jogadores corria com um lenço, pela parte de fora desse círculo, deixando-o cair atrás de um ou uma jogadora que esteja no círculo. Este(a) apanhava rapidamente o lenço e tentava apanhar o que o tinha deixado cair, enquanto ele procurava retomar o seu lugar. Todo o jogador que era.
 
- Jogo da Panela Velha – Jogador geralmente por homens e mulheres dispostos numa roda, tratava-se de atirar uma panela velha de uns para os outros (por vezes uma cantara) e ninguém e podia deixar cair.
Para além destes jogos da Freguesia praticavam-se ainda outros, comuns a região e ao pais, são disso exemplo os jogos das concras do anel, da cantara, de estaca, do prego, da malha e do bugalho.
 
Por outro lado, recuperaram-se igualmente alguns brinquedos como a funda (entroque com vagem de sabugueiro), o pião, a pidocha e a carripana.
 
 
 
LENDAS E TRADIÇÕES: 
Da cultura popular, chegam-nos lendas e tradições que povoam as memórias dos mais idosos como, a Procissão ou Devoção do Nus, a Bênção dos Compôs, a Campainha da Burra, o Correr da Campainha e o I Ir a Ré ou Ir á Proa,
A Procissão ou Devoção dos Nus foi um costume que nasceu num dos lugares da Freguesia de São Martinho do Bispo – Fala _ tratando-se de um dos fenómenos mais importantes, consistentes e duradouros a religiosidade popular em Portugal.
Decorria uma das muitas crises agrícolas em Portugal, esta de 1422 a 1427, e as searas, rebanhos e pessoas eram dizimados pela peste. Foi então que os seus cinco filhos iriam despidos da cinta para cima e dos joelhos para baixo, na procissão em honra dos Santos; mártires de Marrocos, que se realizava em todos os dias 16 de Janeiro. EM virtude disso, Vasco Martins e seus filhos foram poupados e a promessa cumpriu-se. A partir dai, o número de participantes aumentava cada ano, vindo das povoações rurais apresentando-se despidos à imagem dos mártires de Marrocos nos seus dias de tortura. Tornou-se num doa maiores e mais curiosos fenómenos da Região, que só terminou três séculos e meio mais tarde, quando foi interdito por carta pastoral de 15 de Janeiro de 1798, pelo então Bispo Conde de Coimbra, D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho, que não proibia a procissão em si, mas a participação dos nus.
A Bênção dos Campos tem, provavelmente, por base, alguma das crises agrícolas que entretanto assolaram todo o país, tratando-se de uma tradição antiga que durou até meados do século XX.
 
Uma campanha milagrosa andava associada a esta tradição, que consistia em percorrer os campos de Coimbra, rezando e tangendo uma campanha, transportada pelos frades crúzios, seguidos pelos camponeses. Estes, por sua vez, prometiam encher a campanha umas “tantas vezes” de milho, com que mantinham bem recheados os celeiros do Mosteiro de Santa Cruz. O último registo conhecido, diz-nos que os camponeses de São Martinho fizeram a bênção dos campos, em 1928.
Paralelamente, e como consequência do já referido culto aos Mártires de Marrocos, outra tradição nasceu denominada a Campainha da Burra, que durou até finais do século XIX. Acontecia todos os anos, no dia 16 de Janeiro, em que uma burra, carregando os despojos dos ditos Martins, percorria as freguesias e sempre acompanhada da tal campainha milagrosa. Esta era levada para o interior de cada casa e colocada sobre a cabeça de cada um dos membros da família, proferindo-se as seguintes palavras “em nome dos Santos Mártires de Marrocos, para que te dêem juizinho até a hora da morte!” A campainha regressavam sempre com uma esmola.
Esta tradição tem vindo a ser reconstituída regularmente em Fala, terra de Vasco Martins, pelo seu grupo tradicional.
O Correr da Campainha era uma tradição de São Martinho do Bispo, que  consistia em fazer correr uma campainha por toda a Freguesia, anunciando a morte de alguém a todos os habitantes. Durou quase até o fim do século XX e não há registo de tradição semelhante nas redondezas.
Noutros tempos, com o findar do Carnaval e o inicio do período da Quaresma as pessoas, devido a sua profunda religiosidade, não se divertiam em bailaricos, pândegas ou arraiais, obviamente devido a solenidade da época. A Quaresma, como o nome indica, são os quarenta dias que antecedem a Páscoa e em que, no calendário litúrgico, as pessoas eram dadas a jejuns, abstinências, rezas e cânticos, a exemplo do amentar as almas. Por isso, só no sábado de Aleluia se reiniciavam os folguedos, com os referidos bailaricos e arraias de que era expoente máximo, nesta região, a Romaria da Senhora dos Milagres, na localidade de Cernache, na segunda-feira de Pascoela.
No entanto o povo, sempre folgazão e alegre, ainda arranjava motivos para se divertir durante a Quaresma, assomando aos jogos dos domingos, como o da pela, do anel-anel, das prenda e da malha, entre outros.
 
Um dos motivos de divertimento, essencialmente feminino, era o Ir a Ré ou Ir a Proa Tradicionalmente, todos os anos no quinto domingo da Quaresma, realiza-se em Taveiro, a Procissão do Senhor dos Passos. Nesse propósito, ainda hoje se junta bastante gente as zonas circunvizinhas, incluindo a freguesia de São Martinho do Bispo, para além de muitos habitantes de Coimbra.
Em tais circunstâncias, outrora, os jovens faziam o percurso (de ida e volta) a pé, não só por que os meios de transporte eram escassos, mas também porque o dinheiro não abundava. Por outro lado era uma excelente oportunidade para se arranjar um namorico.
Por essa ocasiões, e nos lugares juntos à estrada Real que liga Coimbra a Alfarelos, juntava-se o mulherio as portas das casas. Por conseguinte, quando os romeiros regressavam da procissão, eram alvo de chacota das mulheres ali reunidas. Assim se vinham acompanhados por namoradas, atribuíam-lhe o dichote de quem “vinha a proa”, por sua vez, os que era desprestigiante para os romeiros,
Este foi um costume da região que perdurou até dias bastante recente, pois ainda era realizado nos anos sessenta.